
A pergunta clássica da vilã ou Madrasta Má (da Branca de Neve) nunca foi sobre beleza. Sempre foi sobre vaidade, negação e medo da verdade.
Evidente que se o espelho disser “não” é mais fácil quebrá-lo do que procurar melhorar. E o espelho não mente!
Da mesma forma, tornou-se célebre a frase da música “Amor I Love You”, cantada por Mariza Monte, quando apaixonadamente declara, sem explicação maior, que: ”…é o espelho sem razão”.
Sim, mania nossa de reclamar do espelho. Porém, nunca foi tão atual quanto agora quando o Brasil se olha no espelho e se assusta com o que vê. Isto é o que nos conta no livro ”Best Seller” do momento, “Brasil no Espelho”, o escritor Felipe Nunes. O autor mostra com dados e métodos aquilo que muitos preferem não encarar que é o fato do Brasil viver uma crise que não é apenas econômica ou institucional, mas uma crise de identidade coletiva.
Sim, ao ler o livro de apenas 220 páginas, você verá que o reflexo incomoda. Diante do espelho, o país não vê apenas desigualdade, corrupção ou crise institucional. Vê um retrato de si mesmo, construído com pequenas concessões diárias, silêncios cúmplices e uma permanente terceirização de culpas; vê um país que desconfia de tudo e de todos; que perdeu a fé nas instituições porém segue esperando soluções mágicas; que cobra resultados imediatos mas rejeita o custo das transformações estruturais; que é conservador nos costumes mas dependente do Estado para sobreviver e profundamente desconfiado da política. Uma combinação maluca, explosiva e insustentável.
Porém, o livro desmonta uma das grandes ilusões nacionais: a idéia de que a crise brasileira é fruto exclusivo de maus governantes. O espelho revela algo mais perturbador: há uma sociedade que terceiriza responsabilidades; que se acostumou a viver entre a indignação e a inércia; que não se discute projeto de país, apenas pertencimento. Nesse cenário, líderes não são escolhidos por competência mas por capacidade de encarnar medos, solucionar crises de grupos, raivas e frustrações coletivas. Um avanço sem perspectivas de futuro, enfim!
Demais: o Brasil retratado no livro é um país cansado, ansioso, impaciente e, paradoxalmente, resistente a mudanças profundas. Quer eficiência sem disciplina; ética sem sacrifício; progresso sem ruptura; resultados rejeitando processos; transformação sem aceitar mudança estrutural. Por fim, o livro proclama: enquanto não houver maturidade cívica, não haverá projeto nacional sustentável.
E este pode ser o maior recado: lembrar-nos que o problema do Brasil não começa em Brasília. Começa no espelho. E agora, José?
Sim, como a Madrasta Má no meio deste contexto, o país se olha no espelho e espera aplausos. Só nosso “Rei mau” ou a “Rainha Má” enxergam belezas! Até porque o reflexo mostra a verdade feia, torta e cansada e a reação não é mudar, é quebrar o espelho. Por isso a frase de Gandhi: “Seja você a mudança que quer ver no mundo”soa quase ofensiva por aqui. Ela exige aquilo que o brasileiro evita: responsabilidade pessoal.
Sim, gritar é mais fácil do que admitir que o sistema inicia em casa, na fila furada, no favor pedido, no silêncio conveniente.
O espelho mostra que o país não está doente por acaso. Está doente porque escolheu ser assim. E o espelho não mente. Não adianta quebrá-lo! É preciso encarar a realidade. E quando teremos isto? Não será fácil! Porém, na situação que estamos a nação e o país não terão futuro e vamos empobrecer cada vez mais em relação ao resto do mundo. Vale muito a leitura do livro e conhecer dados nacionais com as mudanças dos últimos 28 anos. Boa leitura!




