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Francisco de Assis, o Santo, 800 anos depois

By Moacir de Melo

Oito séculos nos separam da morte de Francisco de Assis, em 1226. O mundo que conheceu desapareceu: cidades mudaram, impérios ruíram, fronteiras foram redesenhadas e a humanidade chegou à inteligência artificial.

Francisco, entretanto, continua contemporâneo. Talvez porque não tenha deixado apenas respostas. Deixou perguntas. De que precisamos realmente para viver? Quanto basta? O que significa possuir? Quem é o nosso próximo? E até onde vai nossa fraternidade?

Giovanni di Pietro di Bernardone nasceu em Assis, em 1182. Filho de um próspero comerciante, conheceu dinheiro, festas e sonhos de glória militar. Foi à guerra, tornou-se prisioneiro e experimentou a doença. Aos poucos, percebeu que procurava alguma coisa que riqueza, prestígio e armas não conseguiam oferecer.

Sua transformação não aconteceu num palácio nem diante dos poderosos, mas de um dos episódios mais simbólicos de sua vida que foi o encontro com um leproso, justamente alguém que a sociedade de seu tempo preferia não enxergar.

Francisco aproximou-se daquele de quem todos se afastavam. Talvez esteja aí uma das chaves de sua grandeza. Depois vieram a renúncia aos bens, as pregações e uma maneira radicalmente diferente de compreender a existência. Ele não desejava possuir o mundo, apenas pertencer a ele como irmão.

Chamou o Sol de irmão; a Lua de irmã; a água, a terra e o fogo eram irmãs e irmão E, próximo da morte, teve a extraordinária serenidade de chamar também de irmã a própria morte corporal. Não era poesia vazia. Era uma concepção de mundo.

Em plena época das Cruzadas, Francisco realizou outro gesto surpreendente. Em 1219, atravessou as linhas de combate e encontrou-se no Egito com o sultão al-Malik al-Kamil. Num mundo dividido entre cristãos e muçulmanos em guerra, escolheu o encontro.

Oitocentos anos depois, talvez seja exatamente isso que torne Francisco tão necessário nos dias de hoje. Sim, temos mais tecnologia, mais velocidade, mais informação e mais capacidade de produzir riqueza do que qualquer sociedade que Francisco poderia imaginar. Entretanto, continuamos cercados por guerras,

intolerância, desigualdades, solidão e agressividade. Multiplicamos instrumentos de comunicação e, paradoxalmente, muitas vezes desaprendemos a conversar. Francisco parece perguntar ao homem contemporâneo: de que vale conquistar o mundo se perdemos a capacidade de reconhecer o outro?

Dante Alighieri, na obra maior da literatura italiana, “A Divina Comédia, Paraíso”, dedicou-lhe parte do Canto XI e associou seu nascimento ao surgimento de um sol para o mundo.

Pois é, oito séculos depois, o homem pobre de Assis permanece. Com certeza o maior tributo que possamos lhe dedicar não seja tentar viver exatamente como ele viveu -seria impossível- mas recuperar algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: olhar novamente para o outro, para o pobre, para o diferente, para os animais, para a natureza e para nós mesmos como partes de uma mesma existência.

Sim, sim, e por que 800 anos depois, (03/10/1226) Francisco de Assis continua tão vivo? Exatamente porque o que ele perguntou ao mundo continua sem resposta.

MOACIR DE MELO
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