Aos 80 anos, Fernando Ivan José Rodrigues relembra episódios de sua trajetória política em Anápolis, sua passagem pela Câmara Municipal e o período em que, na condição de presidente do Legislativo, assumiu temporariamente a Prefeitura. Na conversa, ele também fala sobre os tempos em que Anápolis não podia escolher diretamente seus prefeitos, projetos apresentados como vereador e as transformações vividas pela cidade. Confira:
Você se lembra de como foi o momento em que, como presidente da Câmara, precisou assumir a Prefeitura de Anápolis, em maio de 1982, com o afastamento de José Bastista Júnior, o então prefeito?

Lembro. O ministro da Justiça pediu que eu fosse a Brasília e disse que não queria que um técnico assumisse a Prefeitura. Pediu que eu assumisse. Depois, na véspera, o então comandante da Base Aérea de Anápolis, Coronel-Aviador José Elislande Baio de Barros, foi à minha casa e disse que eu não deveria assumir. Eu respondi: “Então o senhor fala com o ministro, porque foi o ministro da Justiça que pediu para eu assumir”. O então prefeito, Wolney Martins de Araújo, que havia assumido em 24 de março de 1980, foi afastado em 15 de maio de 1982.
Fiquei com aquela situação nas mãos e procurei o doutor João Barbosa das Neves, que era meu amigo. Contei a história: o ministro da Justiça tinha pedido que eu assumisse e o comandante da Base dizia para eu não assumir. Ele me orientou. Eu não queria confusão; queria paz. Então assumi.
E como começou sua passagem pela Prefeitura?
Quando cheguei à Prefeitura, encontrei umas 20 lavadeiras que precisavam se aposentar, mas nunca tinham feito determinados recolhimentos. Eu achava aquilo um absurdo. Consultei o doutor João Barbosa das Neves para saber o que poderia ser feito. A partir daí, tomei providências para beneficiar trabalhadores que recebiam até um salário mínimo. Foi assim que começou minha passagem pela Prefeitura.
Quanto tempo você permaneceu como prefeito?
Um mês e pouco.
Naquela época, Anápolis era considerada área de interesse da segurança nacional. O que mais marcou sua curta passagem pela Prefeitura?
Um dos fatos mais marcantes foi a doação do terreno para a Associação Atlética Anapolina, hoje pertencente à OAB porque a Anapolina o vendeu e adquiriu outra área às margens da BR-152 no bairro de Lourdes. Mas com a doação, ela conseguiu realizar um sonho antigo dos torcedores de possui um local para treinar.
Como era o clima político de Anápolis no período em que a cidade não elegia diretamente o prefeito?
Parece que o povo não ligava muito. Foram vários prefeitos, um atrás do outro, que o povo teve que aceitar. O prefeito era nomeado e não havia muita atenção do povo para essa situação.
De quais prefeitos nomeados você mais se lembra?
Lembro de alguns. Eurípedes Junqueira era uma boa pessoa e foi um bom prefeito. Na época, achei estranho porque ele havia concorrido à eleição, perdido e depois foi nomeado. Olímpio Ferreira Sobrinho também foi um bom prefeito. Jamel Cecílio, Anapolino de Faria…
Você participou da elaboração da Lei Orgânica do Município e dos momentos da época da nomeação de prefeitos?
Participei, ativamente também desses momentos. Houve um episódio em que havia coligações para eleger os prefeitos e Ronaldo Caiado, então presidente do Partido da Frente Liberal, pediu para o PFL coligar em Anápolis com o médico Henrique Santillo, que não aceitou e acabou eleito.
Como você avalia a volta das eleições diretas para prefeito? Foi positiva para Anápolis?
Foi boa, muito positiva para o povo que passou a escolher seus governantes. Nem sempre escolhíamos o melhor, mas o fato de escolher, de trocar de gestor, sempre é positivo para melhorar a administração.
Ao longo de sua trajetória política, quais foram as maiores dificuldades e alegrias de representar a população de Anápolis?
Um dos projetos que fiz foi criando uma funerária municipal. Os pobres precisavam pedir ajuda quando alguém morria. O projeto acabou sendo vetado. Nós conseguimos derrubar o veto, mas, mesmo assim, acabou ficando no papel.
E o que lhe dava mais alegria como vereador?
A gente conseguia muita coisa. Eu gostava de política, embora meu pai não quisesse que eu entrasse. Na política, a gente trabalhava muito em troca de nada, mas eu gostava porque achava que podia interferir e ajudar em algumas coisas.
Você apresentou vários projetos durante sua trajetória?
Apresentei, muito deles aprovados por unanimidade e benéficos para a população.
Você tem contato políticos hoje em dia?
Não tenho contato. Fui acometido por um problema nas pernas, a pressão cai e não consigo ficar de pé. Antes disso, fazia grandes caminhadas. Mas depois, não deu mais. Busquei recursos aqui e em Goiânia, mas nada. Começou há uns dois anos. Acabei por ficar isolado do mundo da política.
Como você avalia a evolução de Anápolis daquela cidade das décadas de 1970 e 1980 para os dias atuais?
Evoluiu bastante. Houve um grande desenvolvimento, geração de empregos, polos de segurança, indústria, educação, comércio. A saúde e os hospitais também evoluíram o que é gratificante. Embora meu filho Ivan tenha falecido depois de ser internado com pneumonia. Mas não sei, talvez tenha sido uma fatalidade.
Que conselho você daria hoje a um jovem que pensa em entrar para a política?
Acho que deve entrar. Homem, mulher, negro ou branco merecem ter esse direito. todo tipo de pessoas, de todas as classes, têm o direito de defender suas ideias.
Aos 80 anos, o que considera mais gratificante em sua trajetória e que gostaria que ficasse como lembrança para sua família, seus amigos e para Anápolis?
Houve coisas que conseguimos mudar. Por exemplo, aumentaram os impostos das escolas de 2% para 5%, e também dos hospitais. Eu achava aquilo um absurdo. Quando assumi, consegui fazer voltar para 2% o que era mais justo. Fazer política trabalhando em benefícios dos mais necessitados é uma forma de não ser esquecido.
Obrigado pela gentileza de nos conceder essa entrevista, Fernão Ivan. Gostaria de deixar alguma mensagem para os anapolinos?
Que Anápolis continue prosperando e crescendo, gerando empregos para essa boa gente. Estarei sempre à disposição de vocês, quando precisarem. Será um prazer.
NOTA:
Odontólogo, nascido em Anápolis em 1946, Fernão Ivan José Rodrigues chegou a ser prefeito de Anápolis, por um breve período, de 17 de maio de 1982 a 4 de junho de 1982, nomeado pelo Governo do Estado. Fernão Ivan José Rodrigues foi vereador de Anápolis por quatro mandatos.
Além disso, Fernão presidiu a Câmara em dois períodos: 1981–1983 e 1995–1996.
Prefeitos nomeados no período em que Anápolis era considerada área de interesse da segurança nacional:
- Irapuan Costa Júnior — 1973–1974
- Eurípedes Barsanulfo Junqueira — 1974–1975
- Jamel Cecílio — 1975–1978
- Lincoln Gomes de Almeida — 1978–1979
- Decil de Sá Abreu — 1979–1980
- Wolney Martins de Araújo — 1980–15 de maio de 1982
- Fernão Ivan José Rodrigues — 17 de maio a 4 de junho de 1982
- Olímpio Ferreira Sobrinho — 1982–1983
- Anapolino Silvério de Faria



