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Vitória, o filme: a omissão do estado e o sofrimento popular

Moacir de Melo

O cinema brasileiro sempre encontrou no Rio de Janeiro um laboratório de feridas expostas. Praticamente isto é o que afirma o colunista José Casado, na Revista Veja número 2991: “O Rio, hoje, é a melhor tradução da liquefação política brasileira.”

Casado nos mostra a força e o poder das facções criminosas no contexto político do Estado do Rio, sob o olhar complacente dos poderes públicos por conveniência ou não.
“Vitória,” filme lançado em 2025, baseado na história real de Joana Zeferino da Paz é, acima de tudo, uma amostra e um manifesto contra a omissão sistemática do Estado.
No centro desta manifestação, está Fernanda Montenegro, cuja interpretação não é apenas um exercício de talento, mas um ato político de dar rosto à invisibilidade. A trama nos apresenta uma idosa que, diante da janela, testemunha a degradação do espaço público. A crítica central aqui não reside apenas na existência do tráfico, mas na sua normalização pura e simples.
O Estado não está ausente por incapacidade técnica, mas por uma omissão simples. E quando as polícias e o poder público recuam de suas funções básicas, eles entregam as chaves da cidade ao poder paralelo.

Vitória, filme inspirado em fatos reais, deveria estar na mídia como estiveram “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, (filmes que poderiam se tornar apenas históricos e construtivos, porém, foram ideologizados de maneira indevida).

Dona Vitória (pseudônimo para evitar reconhecimento e morte), com sua câmera em punho, escancara uma verdade incômoda: o cidadão comum, especialmente o mais vulnerável, é empurrado para o papel de mártir porque as instituições que deveriam protegê-lo escolheram olhar para o outro lado. A câmera dela registra, pois, o atestado de óbito da eficiência estatal.
A escolha de Fernanda Montenegro que desempenha um papel de rara grandeza, é o que eleva a crítica política do filme.
Ao colocar uma mulher de 95 anos como a única barreira ética contra a criminalidade, o filme gera um contraste visual devastador.

É o ápice do absurdo político: a força física e bélica do crime e a força institucional do Estado são confrontadas pela fragilidade física de uma idosa armada apenas com a verdade. Sim, sim, vale a pena assistir o filme e conhecer a verdade que pode ficar escondida do grande público.

A célebre atuação de Fernanda humaniza a estatística. Quando ela treme ao segurar a câmera, o espectador sente o peso de uma sociedade que falhou com seus idosos e com sua segurança.
É duro saber que a omissão do Estado permite que o crime prospere na calçada de um bairro nobre enquanto as comunidades vizinhas sofrem o impacto direto dessa “cegueira” oficial.

Também pudera: quando o líder maior de uma nação declara que “traficantes são vítimas dos usuários de drogas”, nada se pode esperar de um país ou nação. Sim, caminhamos céleres para o “Salve-se quem puder”!

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