Meio Ambiente

Atropelamentos de animais ameaçam a fauna da Chapada dos Veadeiros

Entre as soluções defendidas pelos pesquisadores estão a instalação de passagens subterrâneas e aéreas

As rodovias brasileiras são cenário de uma tragédia ambiental silenciosa. Estimativa do Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas, ligado à Universidade Federal de Lavras, aponta que aproximadamente 475 milhões de animais silvestres morrem atropelados todos os anos no país.

Sinalização farta não tem sido suficiente para reduzir os atropalmentos

Isso representa cerca de 15 animais por segundo ou quase 900 por minuto. Mais de 90% das vítimas são pequenos vertebrados, como sapos, cobras, aves e roedores, que muitas vezes passam despercebidos pelos motoristas.

Parque Nacional da Chapada

Na Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás, o problema exige atenção especial. A região abriga uma das áreas mais importantes para a conservação do Cerrado. O Parque Nacional possui aproximadamente 240 mil hectares e, ao lado do Parque Nacional das Emas, integra a lista do Patrimônio Mundial Natural da Unesco por proteger ambientes fundamentais para a sobrevivência da fauna e da flora do bioma.

Rodovias como a GO-239, principal acesso entre Alto Paraíso de Goiás e a Vila de São Jorge, além da GO-118 e da BR-010, atravessam áreas de grande circulação de animais. Eles precisam cruzar as pistas em busca de alimento, água, abrigo, território ou parceiros para reprodução. As estradas, porém, dividem seus habitats e transformam trajetos naturais em travessias perigosas.

Uma pesquisa realizada entre 2006 e 2008 nas duas principais rodovias próximas ao Parque Nacional registrou 824 vertebrados atropelados, pertencentes a 138 espécies. Entre os animais encontrados com maior frequência estavam o sapo-cururu, aves do Cerrado, preás e jararacas. O levantamento também identificou aumento significativo das mortes durante o período chuvoso, quando anfíbios e outras espécies apresentam maior deslocamento.

Somente a prudência poderá contribuir com a redução dos números alarmantes

Números cada vez maiores

Outro estudo, concentrado em apenas 36 quilômetros da GO-239 entre Alto Paraíso e São Jorge, encontrou 186 animais atropelados durante seis meses de monitoramento entre 2019 e 2020. Foram registrados 82 anfíbios, 59 aves, 29 répteis e 16 mamíferos. Os pesquisadores classificaram o impacto ambiental do trecho como “muito alto” e “extremamente alto”.

A pavimentação também pode ampliar o problema ao permitir maior velocidade e aumentar o fluxo de veículos. Pesquisa da Universidade de Brasília identificou crescimento na frequência dos atropelamentos após a pavimentação de parte da GO-239, além da formação de pontos críticos próximos às áreas urbanizadas.

Além da perda direta de animais, os atropelamentos comprometem o equilíbrio ecológico. Sapos e cobras ajudam no controle de insetos e roedores; aves dispersam sementes; tamanduás controlam populações de formigas e cupins. Quando essas espécies desaparecem, toda a cadeia ambiental pode ser afetada. Acidentes com animais de maior porte também representam risco para motoristas e passageiros.

Possíveis soluções

Entre as soluções defendidas pelos pesquisadores estão a instalação de passagens subterrâneas e aéreas para a fauna, cercas direcionadoras, sinalização adequada, fiscalização, monitoramento dos pontos críticos e campanhas permanentes de educação ambiental. A redução da velocidade, sobretudo à noite, ao amanhecer, no entardecer e durante o período chuvoso, é uma das atitudes mais importantes.

Ao avistar um animal, o motorista deve reduzir a velocidade de maneira segura, evitar buzinas e manobras bruscas e aguardar a travessia. Na Chapada dos Veadeiros, dirigir com atenção e respeitar os limites da via não é apenas uma medida de segurança: é também um compromisso com a preservação da vida e do Cerrado.

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