
E nossos poderes políticos discutem, já de algum tempo, trabalhar menos enquanto o futuro nos mostra que devemos trabalhar mais para sustentar uma nação que envelhece sem ter enriquecido, socializando pobreza e sem luz no fim do túnel.
Essa é a contradição central que poucos têm coragem de colocar sobre a mesa. O debate sobre o fim do 6 x 1 parece moderno, justo e humanitário. Porém, como não existe almoço grátis, ignorar o contexto demográfico e fiscal do país é irresponsabilidade travestida de sensibilidade social. E isto é o que está acontecendo no país, agora.
Ao observar números oficiais vemos que a nação brasileira envelhece rapidamente e que, em 2050, teremos quase um terço da população acima de 60 anos, com isto a base da pirâmide encolhe e menos jovens entrarão no mercado de trabalho, resultando em menos trabalhadores sustentando mais aposentados. E o que discutimos? Trabalhar menos quando a lógica é trabalhar mais.
Afinal, com nossa baixíssima produtividade em relação a qualquer país do planeta, reduzir jornada leva a uma matemática simples: Se há menos gente produzindo e mais gente dependendo, o valor gerado por cada trabalhador precisa aumentar não diminuir, resultando que a pobreza será aumentada e socializada. A conta não fecha!
Por outro lado, um aumento real nos salários de 8 a 10% a todos os trabalhadores, que adicionados aos encargos trabalhistas que chegam a mais de 100%, resulta em torno de 16 a 20% de custo a ser adicionado ao custo dos produtos, quaisquer que sejam. Porém, temos ainda, em implantação, uma reforma tributária que nos trará o maior IVA do planeta. Para setores que dependem de muita mão-de-obra é custo que vai imediatamente para o preço dos produtos finais, gerando mais inflação, tendência de demissão, automatização de negócio e expansão da informalidade e, com isto, crescimento do déficit público. Nenhum deles fortalece o trabalhador.
Porém, o que está em jogo não é apenas a escala 6 x 1, mas o pacto entre gerações.
Estamos autorizados a tomar decisões populares hoje que empurram a conta para nossos filhos e netos? É muita covardia! Sim, um país que envelhece, com benesses, antes de enriquecer, precisa ser obsessivo em eficiência.
Porém, nossa produtividade cresce a passos de tartaruga há mais de quarenta anos, fruto de formações errôneas das gerações pós 1970 que não foram profissionalizadas e, sim, induzidas na busca incessante do diploma universitário como solução. Deu errado!
Sim, já de nossa tradição, criamos a cultura da ampliação de direitos antes da geração de riqueza correspondente. A conta chega sempre depois (e já chegou) em forma de inflação, juros altos, desemprego ou estagnação. Não existe bem-estar sustentável sem produtividade.
Não existe proteção social sem base econômica sólida. Não existe jornada reduzida em economia estruturalmente improdutiva. A pergunta que deveríamos estar fazendo não é “6 x 1″, ma sim “estamos preparando o país para sustentar a próxima geração?”.
Os indicadores mostram que não. Por isso, estamos discutindo conforto imediato enquanto adiamos uma crise previsível. Trabalhar menos pode ser civilizatório. Mas só depois de produzir mais. Caso contrário, não será avanço. Será apenas mais um capítulo da irresponsabilidade crônica que nos trouxe até aqui.



