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A Ilusão do clique: como as apostas digitais viciam e afetam a saúde mental no Brasil

Embora não envolva a ingestão de uma substância química o vício em jogos atua no cérebro de forma análoga às drogas

Nos últimos anos, as plataformas de apostas online deixaram de ser mero entretenimento para ocupar um espaço ostensivo no cotidiano brasileiro.

Presentes em transmissões esportivas, outdoors e anúncios digitais, essas empresas atraem milhões com a promessa de lucros rápidos, mas deixam um rastro silencioso de endividamento e sofrimento psíquico. Estimativas apontam que cerca de 30% da população adulta costuma apostar, impulsionada pela conveniência do acesso na palma da mão. O Congresso já avançou na restrição à publicidade das bets, mas ainda não existe uma lei federal em vigor equiparando a propaganda das apostas à de cigarros e bebidas alcoólicas.

A ciência por trás da dependência

Embora não envolva a ingestão de uma substância química, o vício em jogos — tecnicamente chamado de ludopatia ou transtorno do jogo — atua no cérebro de forma análoga às drogas. O psicólogo João Lucas Goulart explica que a aposta ativa o sistema de recompensa cerebral, liberando dopamina. A imprevisibilidade dos resultados cria um ciclo de aprisionamento: a pessoa permanece jogando alimentada pela expectativa contínua de que a próxima rodada trará o ganho esperado.

Além das instituições particulares a Secretaria Municipal de Saúde de Anápolis possui serviços de apoio ao tratamento da saúde mental como os CAPS

Com o tempo, o cérebro desenvolve tolerância a esses estímulos. Segundo o médico psiquiatra Daniel Gamero, que atua no Ânima Centro Hospitalar, o apostador passa a necessitar de valores progressivamente maiores para atingir a mesma carga emocional do início. Sem a prática, surgem sintomas claros de abstinência, como irritabilidade e ansiedade intensa.

Design de captura e vulnerabilidades

A arquitetura das apostas virtuais é desenhada para reduzir o custo do engajamento e dificultar a percepção de perda.

Algoritmos e isolamento: ofertas personalizadas surgem diretamente no celular, favorecendo o jogo solitário e dificultando que familiares percebam o endividamento.

Ilusão de facilidade: a promoção feita por influenciadores gera a falsa sensação de que a ascensão financeira é simples.

Perfis sensíveis: jovens com impulso em desenvolvimento, pessoas em vulnerabilidade socioeconômica e indivíduos enfrentando quadros de estresse ou depressão são os mais suscetíveis.

Caminhos para recuperação e redes de apoio

Reconhecer os sinais de alerta — como a negligência com obrigações, o segredo sobre finanças e a necessidade constante de jogar — é o primeiro passo. O acolhimento familiar sem julgamentos é fundamental para vencer a negação do paciente.

Como resposta ao avanço da condição, a rede pública de saúde tem ampliado os atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS AD) e Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde o tratamento combina psiquiatria e psicoterapia cognitivo-comportamental.

Além disso, ferramentas governamentais de autoexclusão pelo CPF e o monitoramento online pelo SUS ajudam os cidadãos a imporem limites a um hábito que rapidamente pode fugir do controle.

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