O mês de setembro acende um alerta nacional para a prevenção ao suicídio e a valorização da vida, mas, dentro de casa, o sofrimento psíquico de um familiar ou amigo muitas vezes passa despercebido ou é confundido com cansaço e “fases difíceis”.
Reconhecer a linha tênue entre uma tristeza passageira e uma crise que exige intervenção médica imediata é o primeiro passo para salvar vidas.
De acordo com a psicóloga Marília Carvalho, do Ânima Centro Hospitalar, o comportamento suicida é multifatorial, envolvendo desde dores emocionais até desregulações químicas e hormonais reais no cérebro.
“A pessoa não consegue ‘sair dessa’ sozinha não por falta de vontade ou de fé, mas porque seu organismo e sua mente estão profundamente desorganizados e precisam de suporte”, explica a especialista.
Diagnósticos prévios (como Transtorno Bipolar ou Borderline), histórico de abusos, puerpério e vulnerabilidade social são fatores de risco conhecidos. No entanto, no dia a dia, os sinais costumam ser minuciosos e variam conforme a idade.
Sinais silenciosos
A mudança brusca de comportamento é o principal termômetro. O isolamento social, a irritabilidade extrema e a perda de prazer em atividades que antes eram significativas (anedonia) exigem atenção redobrada, assim como o abuso de álcool e medicamentos sem prescrição.
A psicóloga detalha que os indícios mudam de acordo com a fase da vida:
Adolescentes: Tendem à reclusão social total (vivendo apenas no ambiente online), queda no rendimento escolar e embotamento afetivo (aparente incapacidade de sentir ou demonstrar emoções).
Jovens e Adultos: O alerta surge com a perda de funcionalidade, como o abandono do trabalho, negligência com a higiene pessoal e o isolamento de amigos e parceiros.
Idosos: Como o envelhecimento traz um ritmo mais lento naturalmente, o risco se manifesta por um nervosismo incomum, irritabilidade e falta de uma rede de apoio.
“A tristeza aguda e passageira geralmente tem um fator causal evidente, como um luto ou uma demissão, e possui um tempo hábil de elaboração.
Já no sofrimento psíquico profundo, a regra de ouro é: a pessoa não deve ficar sozinha.
A rede de apoio precisa estar presente de forma contínua”, pontua Marília.
O que dizer e o que evitar
Para quem está de fora, o medo de “falar a coisa errada” costuma paralisar. O pilar central da abordagem, segundo a especialista, deve ser o não julgamento. Em vez de discursos, a ajuda prática — como cozinhar, lavar uma roupa ou resolver uma pendência — demonstra cuidado real.
Frases clichês como “isso vai passar”, “é falta de Deus”, “você precisa ser forte” ou “é frescura” devem ser totalmente abolidas, pois geram mais culpa e distanciamento.
O correto é oferecer escuta ativa: “Estou aqui com você, como você está se sentindo? Vamos buscar ajuda juntos?”.
A hora de buscar o Pronto-Socorro
Muitas famílias têm dúvidas sobre quando o conselho deve dar lugar a uma medida de urgência. A resposta é clara: diante do risco iminente.
A busca por um pronto-socorro (seja de um hospital geral ou psiquiátrico) torna-se obrigatória no momento em que se identifica o risco de autoextermínio ou comportamentos autolesivos graves — como a ingestão excessiva de remédios, cortes corporais ou atitudes de alto risco, como dirigir de forma imprudente e se expor em locais altos.
“Diante de uma crise aguda, a família ou os amigos não devem tentar gerenciar a situação sozinhos em casa. A providência imediata é conduzir o paciente a um serviço de emergência, onde uma equipe multidisciplinar está preparada para intervir com rapidez e estabilizar o quadro”, alerta a especialista.
E se a pessoa recusar ajuda?
Quando o sofrimento atinge um nível crítico, a pessoa perde temporariamente a capacidade de responder pelo próprio autocuidado. Nesses casos de resistência, a rede de apoio precisa assumir a responsabilidade, substituindo a discussão por atitudes firmes e afetuosas.
“O familiar deve assumir uma postura protetora: ‘Eu te amo, estou com você e estou me responsabilizando por você agora. Não vou te deixar sozinho e nós vamos buscar ajuda profissional juntos’. É demonstrar que a condução ao médico não é uma punição, mas um ato de amor de quem reconhece que o outro não tem condições de se cuidar sozinho naquele momento”, conclui a psicóloga.
ONDE BUSCAR AJUDA Caso você ou alguém que você conheça esteja passando por um momento de sofrimento emocional ou crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188, ou pelo chat no site www.cvv.org.br.



