Artigo

A desesperança produtiva em andamento

Por Moacir de Melo

Em um almoço recente com empresários industriais anapolinos, ouvi de um muito experiente, de 68 anos, uma frase que não deveria existir em um país com pretensões de futuro: “Não acredito mais na recuperação da honestidade no Brasil, nem em melhora consistente da economia.”

Não foi um desabafo impulsivo mas sim um diagnóstico vindo de alguém que construiu, emprega, paga impostos e resiste há décadas de instabilidade. Isto revela o esgotamento de uma geração que acreditou no trabalho como vetor de progresso e que hoje começa a duvidar se valeu a pena.

Porém, o problema não é apenas econômico. É moral! Criamos um ambiente onde o risco de fazer o certo, muitas vezes supera o custo de fazer errado.

E países colapsam quando corroem os valores que sustentam a confiança, base fundamental da economia.

Sem previsibilidade, sem segurança jurídica e sem a percepção de justiça, o investimento recua, o empreendedor hesita e o futuro encolhe.

E o Brasil vem testando esses limites há décadas. Alternamos ciclos de euforia com recaídas previsíveis.

Prometemos reformas que nunca se completam. Premia-se a esperteza em detrimento da competência e aceitamos os desvios como se fossem normais.

O resultado é a desistência dos melhores. Sim, Quando um empresário deixa de investir, o país perde crescimento. Quando um jovem talentoso decide ir embora, perde-se inovação.

E quando um homem de 68 anos perde a esperança, perde-se algo ainda mais valioso: a memória de um Brasil que um dia acreditou em si mesmo. E isso deveria nos alarmar profundamente, até porque nenhuma nação prospera apenas com recursos naturais ou vantagens geográficas.

Prosperidade exige um pacto invisível entre gerações numa crença compartilhada de que o amanhã pode ser melhor do que o hoje. Quando essa crença se rompe, instala-se o imobilismo.

O mais grave, porém, não está nos números. Está no espírito. Quando um empresário experiente perde a esperança, o país perde mais do que um investidor. Perde um referencial. Perde a narrativa de que vale a pena investir e insistir. E, na ausência dessa narrativa, instala-se algo ainda mais corrosivo que a crise econômica: o conformismo e o imobilismo.

E o Brasil acostumou-se a andar de lado, como se a mediocridade fosse destino. Sair desse ciclo exige ruptura com a complacência institucional, com o gasto irresponsável travestido de política social, com a cultura de atalhos e de incentivo ao não trabalho.

É importante afirmar que recuperar a esperança não se faz com discursos, mas com prática, respeito às regras, previsibilidade e responsabilidade com o futuro.

Talvez ainda haja tempo de provar que aquele empresário citado esteja errado. Contudo, o tempo e a confiança se esgotam e raramente concedem novas oportunidades a países que insistem em desperdiçá-los.

Urge, pois, um reposicionamento cultural da nação brasileira o que exige lideranças com visão de futuro.

O resgate da ideia de que prosperar de forma ética não é ingenuidade; é a única base sustentável para qualquer sociedade que queira durar.

Enquanto isso não acontece, só me resta entristecer!

Moacir de Melo

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