
Yes, o futebol se transformou, ao longo do tempo, na coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida no Brasil. Sim, é o esporte que pára uma nação inteira, para o bem ou para o mal e nos une (unia) como nação e, assim, representa nossa própria identidade vestida de amarelo.
Outra coisa que nos tornam unidos é nossa língua falada de norte a sul, leste a oeste, com alguns sotaques diferentes que, porém, não atrapalham no entendimento da comunicação; nosso princípio cristão, por excelência, também sempre foi fator de união.
No último domingo, porém, quando o apito final selou nossa eliminação precoce nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, o silêncio que tomou conta das ruas não foi apenas de tristeza esportiva. Foi de espanto. Um espanto de quem, finalmente, olhou no espelho e não se reconheceu.
Verdade, leitores, é que a bola já não rola limpa em nosso país faz tempo. Conseguimos a proeza de arrastar para as arquibancadas a nossa maior fratura social: a polarização política que paralisa nosso país. Isto porque transformamos o futebol em uma seção eleitoral de 90 minutos. Onde deveríamos enxergar tática, paixão e drible, passamos a contar camisas e números.
Se um jogador usa a 13, uma metade do país torce o nariz, enxergando ali um manifesto ideológico implícito; se o outro ostenta a 22, a outra metade decreta o boicote imediato. O número nas costas dos atletas deixou de ser a numeração do posicionamento em campo para virar legenda partidária. Até a nossa sagrada amarelinha passou anos sequestrada, ora tratada como fetiche de um lado, ora rejeitada como tabu pelo outro. E aí, enquanto nos ocupávamos em debater o viés ideológico do ponta-esquerda ou as inimizades políticas do camisa 10, o futebol brasileiro apodrecia por dentro.
Sim, a bagunça institucional da nossa bola, com suas trocas incessantes de comando, falta de projeto a longo prazo e soberba cultural, cobrou o preço exato em solo norte-americano. Fomos engolidos pela organização alheia. Caímos diante da Noruega. Fomos eliminados antes que o bolo da Copa começasse a ser servido.
Mas a grande tragédia brasileira não é o gol de Haaland ou o pênalti desperdiçado. A queda nas oitavas é apenas o sintoma esportivo de uma nação que desaprendeu a jogar em equipe e foi vencida pela polarização que emperra o país.
Verdade é que o futebol sempre foi a nossa metáfora perfeita para nossos discursos políticos, sociais entre outros. E quando ele vai mal, reflete o que estamos fazendo com o resto. Se o país está fraturado, o passe sai torto.
Ora, se não conseguimos sentar à mesa com quem pensa diferente para projetar o futuro do país, como exigir que onze jovens milionários corram em sintonia fina com a nação brasileira?
Impossível! Verdade é que não estão nem aí. Pois é, passa da hora de uma reflexão mais excelsa, mais alta. O Brasil e a nação brasileira precisam urgentemente resgatar a capacidade de olhar para além dos dígitos 13 e 22.
Sim, sim, a nossa riqueza sempre esteve no meio de campo, na mistura, no entendimento de que a soma das nossas diferenças é o que nos tornava imbatíveis, na vida e nos gramados.
Ora, se não formos capazes de desarmar os palanques que fincamos dentro de nossas próprias casas, bares e estádios, continuaremos sendo este gigante que assiste, do sofá e de braços cruzados, a festa do mundo passar.
O futebol nos deu o aviso de forma brutal. Resta saber se, desta vez, nós vamos querer ouvir. Depende de cada um de nós.




