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Barco de papel e os amores atuais

Há relações que não terminam por falta de amor, mas porque seus integrantes deixam de cuidar das pequenas rachaduras.

Pois é! Atire a primeira pedra quem não ouviu a música “Barco de Papel,” na interpretação do Trio Parada Dura, já com mais de 40 milhões de visualizações no youtube, pelo menos dez vezes?

Nada errado! Afinal, nela há uma profunda reflexão sobre o amor, o desgaste e os limites da convivência, com construção de uma metáfora de grande força poética e não apenas o retrato de uma relação em crise, o desespero de quem tenta salvar uma relação que já vem afundando e a difícil tentativa de remar quando as mágoas se acumulam, o diálogo desaparece e os problemas são adiados.

Com certeza, há relações que não terminam por falta de amor, mas porque seus integrantes deixam de cuidar das pequenas rachaduras. Porém, na letra, a metáfora é ampliada. Pode ser bonito, delicado e até despertar encantamento, mas o barco de papel não é feito para enfrentar correntezas.

Assim também são alguns amores: começam com entusiasmo, promessas e intensidade, porém não desenvolvem estrutura para suportar as diferenças, as frustrações e o peso do tempo. Daí a genialidade da poesia em mostrar que o sentimento, por mais intenso que seja, nem sempre basta para sustentar uma vida compartilhada.

Sendo certo, porém, que nem todo barco pode e deve continuar navegando. Há relações marcadas por desrespeito, humilhação, violência ou ausência completa de reciprocidade que não devem ser romantizadas. Permanecer só tem valor quando existe disposição de ambos para reparar os danos e construir um caminho mais saudável. E para que os amores modernos não se transformem em barcos furados ou de papel, é preciso recuperar a arte de construir juntos. Exige sacrifícios, lógico!

O roteiro é de conhecimento geral: abandonar o mito da pessoa perfeita; aprender a discordar sem destruir, até porque pensar diferente não significa que o barco está afundando; cultivar paciência em uma época que valoriza a rapidez pois o tempo pode desgastar o que é abandonado, mas também consolida aquilo que recebe cuidado; ouvir, ceder quando necessário, pedir perdão e corrigir rumos são formas de retirar a água antes que ela afunde a embarcação, são alguns caminhos.

Acredito, por tudo isto e embasado na experiência de mais de 50 anos de casado, que a homenagem que devemos à poesia de “Barco de Papel” e ao Trio Parada Dura – o faço por este simples artigo – não é apenas cantá-la, mas compreender seu aviso principalmente de que o amor verdadeiro não pode ser feito de papel, nem deixado à deriva.

Ele exige sentimento, responsabilidade, respeito e a coragem de dois marinheiros imperfeitos dispostos a aprender, juntos, a arte de atravessar tempestades e, remando na mesma direção, e, quando possível, permanecer unidos.

Fora disto, um vai para o sul e outro para o norte como nos diz a letra da música. E, claro, afundam!

MOACIR DE MELO

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