
Passados setenta anos da publicação do livro “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa, percebe-se, facilmente, que a maior obra da literatura brasileira – comparada com “Dom Quixote” de Miguel de Cervantes, “Os Miseráveis” de Vitor Hugo e “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marques – fale mais do Brasil de hoje que do país em que foi escrito, em 1956.
À primeira vista, o livro narra histórias sobre jagunços, guerras particulares, vinganças e travessias pelo sertão mineiro e baiano, com alguma dose de amor platônico entre dois personagens (Riobaldo e Diadorim). O verdadeiro sertão de Rosa, porém, nunca foi apenas geográfico. Era moral, político, espiritual e humano. O sertão era o espaço onde as instituições falhavam, a lei se enfraquecia e cada indivíduo precisava decidir, sozinho, entre o bem e o mal.
O Brasil retratado por Rosa é o das primeiras décadas do século XX, quando vastas regiões do interior viviam à margem da presença efetiva do Estado. A autoridade pública era frágil, as distâncias eram enormes e a justiça oficial chegava lentamente. Nesse ambiente surgiam os jagunços, homens armados que serviam a grandes fazendeiros ou chefes políticos regionais. Eles protegiam propriedades, defendiam interesses econômicos, resolviam disputas por terras, executavam vinganças e participavam das lutas pelo poder local. Não eram simples criminosos nem soldados regulares: pertenciam a um mundo onde a força substituía as instituições.
Do outro lado os soldados do governo, quando apareciam, muitas vezes já influenciados por interesses das oligarquias regionais, tornando difusa a fronteira entre justiça, poder e conveniência. Essa ambiguidade é uma das maiores riquezas da obra: nela, o bem e o mal nunca aparecem de forma absoluta. É impossível não reconhecer ecos desse cenário no Brasil contemporâneo, onde as facções criminosas impõem a lei e governo fica ausente, (exemplo clássico nas favelas do Rio de Janeiro). Nos dias de hoje, com o estado presente em todo o território nacional, persistem regiões onde a violência organizada, o crime, a corrupção e a fragilidade institucional desafiam a autoridade pública.
Porém, Riobaldo afirma: “O sertão é dentro da gente.” Esta frase é extremamente atual porquanto desloca o problema do território para a consciência humana. Sim, Riobaldo nunca possuía certezas absolutas. Questionava Deus, o diabo, o destino e a si mesmo. Sua inquietação não representa fraqueza, mas maturidade. Rosa ensina que a realidade é complexa e que a sabedoria nasce mais das perguntas do que das certezas. Também permanece muito atual a crítica ao abandono histórico do interior brasileiro. Apesar dos avanços econômicos e tecnológicos, ainda convivemos com enormes desigualdades regionais, deficiência educacional, infraestrutura precária e oportunidades distribuídas de forma desigual. Muitos sertões e veredas continuam existindo, apenas assumindo novas formas.
Sim, Guimarães Rosa escreveu menos sobre guerras do que sobre escolhas. Menos sobre o sertão físico do que sobre a consciência humana. As batalhas entre jagunços e soldados do governo eram expressão de um Estado ainda em construção. Nossas batalhas de hoje são travadas em outros campos, mas continuam exigindo responsabilidade e compromisso com o bem comum.
Contudo, enquanto houver homens e mulheres tentando distinguir o justo do conveniente, a verdade da propaganda, a coragem do oportunismo e o dever do interesse pessoal, continuaremos atravessando o mesmo sertão, cheio de veredas Brasil afora.
Sendo verdade, também, que os sertões e as veredas mudam. E nossas oligarquias políticas que se perpetuam no poder continuam fortes como nunca e se preocupam menos com a nação e mais com a reeleição. Com isto, o sertão humano adormecido, permanece. E nossas veredas tornam-se eternas. Só nos resta entristecer! Fica, contudo, por este artigo, registrada nossa homenagem a um dos mais renomados escritores brasileiros de todos os tempos: João Guimarães Rosa.




